ARTIGOS

12/01/2016
Limitada Expiação e a Soberania de Deus

Paulo Cesar Bornelli


 “Se trouxermos Deus para o nosso nível e nos elevarmos ao dele, então, é claro, não veremos necessidade de uma salvação radical, muito menos de uma expiação radical que a garanta. Quando, por outro lado, tivermos um  vislumbre  da  deslumbrante  glória da santidade divina, e formos convencidos de nosso pecado pelo Espírito Santo de tal modo que tremamos na presença de Deus e reconheçamos o que somos, a saber, pecadores que merecem ir para o inferno, então, e somente então, a necessidade da cruz ficará tão óbvia que nos espantaremos de jamais tê-la visto antes.” (John   Stott)

 


Limitada expiação ou redenção específica é a doutrina que defende o ponto de vista de que Jesus morreu particularmente em favor dos eleitos de Deus antes da fundação do mundo, assegurando de fato a redenção eterna deles. A teologia define isto como “supralapsarianismo”, isto é, a eleição foi decretada antes da queda (Ef 1:4; 2 Tm 1:9).

Várias passagens bíblicas confirmam esta verdade. Em João 10:11-15, diz que Cristo deu a vida pelas “suas ovelhas”; em Atos 20:28, Paulo falando aos presbíteros de Éfeso na sua despedida, diz que Deus derramou seu próprio sangue pela “sua Igreja”. Novamente Romanos 8:32,33, diz que Deus não  poupou o seu próprio Filho mas que o entregou pelos “eleitos”. Em Mateus 1:20 e 21 um anjo aparece a José em sonho e lhe diz que o menino que iria nascer era Jesus, e que salvaria o “seu povo”. Portanto, a expiação de Cristo não somente salvou pontecialmente os seus eleitos, mas, salvou-os de fato e de verdade.

1.  TRÊS CORRENTES DOUTRINÁRIAS

Com relação a doutrina da expiação ou redenção, temos hoje, dentro do cristianismo, três correntes principais:

1.      Os UNIVERSALISTAS, que defendem que a morte de Cristo foi para todos e que todos serão salvos. O que é contrário aos ensinos da Bíblia.

2.      Os ARMINIANOS, que crêem na expiação universal, mas não crêem na salvação de todos. Nem todos serão salvos, afirmam; pois a decisão cabe ao cada pessoa segundo seu livre-arbítrio.

3.      Os REFORMADOS ou CALVINISTAS  que  crêem  na  limitada expiação. Crêem que Cristo morreu somente pelos seus eleitos e que todos os eleitos serão salvos.


2.  A SOBERANIA FERIDA

Podemos dizer que destas três correntes, duas delas, os universalistas e  os calvinistas, não ferem a soberania de Deus, pois se como crêem os universalistas, o desejo de Deus era salvar a todos e todos serão salvos, cumpriu-se o desejo de um Deus soberano. A doutrina calvinista também não fere a soberania de Deus, pois crêem que o desejo eterno de Deus é salvar os eleitos, como todos eleitos serão salvos, isto testifica a soberania de Deus.

Por outro lado, o arminianismo ofende frontalmente a soberania  de  Deus, pois o desejo de Deus, segundo esta doutrina, é que todos sejam salvos, mas infelizmente nem todos serão. Isto frustra a visão de Deus como soberano.

John Owen, talvez o maior teólogo puritano do século XVII, diz: “A salvação não se tornou possível para todos os homens por meio da morte de Cristo, ela se tornou real para todos a quem foi dada.”1

J.I. Paker mostra como a teologia arminiana é antropocêntrica e não teocêntrica , pois a última palavra é do homem e não de Deus. Vejamos a sua citação: “A obra remidora de Cristo vista pelos arminianos é como a remoção de um obstáculo (as reivindicações não satisfeitas da justiça) que havia no caminho da oferta divina do perdão aos pecadores conforme Ele desejava fazê-lo sob a condição de que eles cressem. Ainda de acordo com o arminianismo, a redenção assegurou para Deus o direito de fazer essa oferta, mas não garantiu por si mesma que qualquer indivíduo viria aceitá-la, pois a fé, sendo obra do próprio homem, não é um dom que lhe seja dado com base no calvário.”2

3.  SOBERANIA DE DEUS E A ELEIÇÃO

A Bíblia nos revela claramente que tudo o que Deus faz é para a sua própria glória, isto é, são manifestações do ser de Deus, ou expressões da sua natureza santa e do seu caráter moralmente perfeito. A princípio parece estranho a nós, limitados pecadores, pensar em um Deus centralizado em si mesmo. Isto nos parece contrário a tudo o que a Bíblia ensina, pois seria o caminho do egocentrismo.

Mas a verdade é que, para nós, pobres criaturas limitadas e pecadoras, é pecaminoso querer ser o centro, pois o motivo que nos leva a este desejo é de usar as pessoas, de nos completar, de satisfazer as nossas necessidades desordenadas, de receber e de levar vantagem em tudo. Mas com Deus, tudo é diferente, pois Deus é completo em si mesmo, não tinha nenhuma necessidade interior ou exterior de criar nada, e nada pode acrescentar alguma coisa a Ele. Nem mesmo a morte de seu Filho na cruz pôde acrescentar-lhe algo, mas pelo contrário, foi uma expressão do seu caráter, da sua justiça santa e do seu imensurável amor.

Portanto, a centralidade de Deus é santa, justa e perfeita, pois Ele quer através dela se dar aos eleitos, revelar-se como a fonte da vida e compartilhar a sua eternidade conosco. Tudo o que Deus criou é para expressar o seu ser, e para a sua própria glória.

Na criação dos seres angelicais, Ele demonstrou o seu poder  em preservar os anjos eleitos (1 Tm 5:21), pois somente os anjos não eleitos caíram. Por isso a Bíblia afirma em Hebreus 2:14-16 que Cristo não veio socorrer anjos, mas se encarnou na forma humana, deixando claro que a redenção é para os homens eleitos e não para anjos. O próprio conceito tão divulgado no meio cristão, de que Satanás era um anjo eleito, sendo um ser talvez mais próximo de Deus, e com um ministério dentro de um propósito eterno para Deus, e que  caiu, fere a soberania de Deus, pois se Deus perdeu o seu anjo principal que se transformou em Satanás, Ele não pode ser soberano.

Um Deus soberano não perde nada, nem perdeu o diabo, e nem perderá nenhum dos seus eleitos para o diabo. O próprio Jesus quando se refere ao diabo, em João 8:44, diz: “... Ele é homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentirosos e pai da mentira.”

Por outro lado, Deus demonstra o seu poder na raça humana permitindo que os seus eleitos façam parte da massa falida da humanidade, redimindo-os através da cruz, por isso ela é, no dizer de Paulo, a demonstração do poder e da sabedoria de Deus. Portanto, no mundo angelical Deus demonstra o seu poder preservando os anjos eleitos, e na esfera humana, Deus demonstra o seu poder redimindo os eleitos.

Se Cristo morreu por todos, todos serão salvos ou, caso contrário, Deus não é soberano, pois sua vontade será frustrada. Se uma única pessoa por quem Cristo morreu não for redimida, então Satanás conseguiu frustrar o propósito eterno de Deus. Jesus mesmo afirma em João 10:27 e 29 que nenhum poder poderia arrebatar das suas mãos as ovelhas que o Pai lhe dera. Também, em João 6:37, Ele afirma: “Todo aquele que o Pai me der, este virá a mim, e o que vem a mim de modo nenhum o lançarei fora.”, e no verso 39 declara: “A  vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último  dia.”

4.  UMA EXPIAÇÃO EFICIENTE

No dizer de Santo Agostinho, “a obra de Cristo é suficiente para todos os homens, mas eficiente só para os eleitos.”

Na realidade quando falamos da limitada expiação, não estamos  limitando a suficiência da obra, mas dizendo que ela atinge, ou foi eficiente,  para todo o propósito de Deus. Na realidade quem limita a eficiência da obra de Cristo são os pelagianos e arminianos, pois tudo o que Cristo fez na cruz está na dependência do homem aceitar ou não. Spurgeon, mostrando o absurdo de tal doutrina, dizia que para serem coerentes, os arminianos não deveriam orar pela conversão de ninguém, pois não depende mais de Deus, pois Deus já fez tudo o que poderia fazer e agora está limitado pelo livre arbítrio do  homem.

Os reformadores, ou calvinistas, ou agostinianos como se queira definir, admitem que o valor da morte de Cristo é infinito, pois depende unicamente da sua dignidade e deu plena satisfação ao caráter santo de  Deus.


Nunca os Reformadores dizem que a morte de Cristo não é “suficiente para todo mundo”. Nunca é colocado limite no valor meritório da obra. Isto é, Cristo não sofreu certa medida em favor de certa quantidade de pessoas, como se para salvar todos teria que sofrer mais.

Charles Hodge diz: “O que foi suficiente para mim, foi suficiente para todos. Nada menos que a luz e o calor do sol é suficiente para qualquer planta  ou animal. Mas o que é plenamente necessário para cada um é sobejamente suficiente para incontável número e variedades de plantas e animais que  enchem a Terra. Tudo o que Cristo sofreu era necessário se apenas uma alma humana fosse objeto da redenção, e nada diferente e nada mais seria necessário se cada filho de Adão fosse salvo por seu  sangue.”3

Poderíamos perguntar, qual foi o propósito de Deus em enviar seu Filho  ao mundo? Será que foi apenas tornar possível a salvação? Será que foi apenas desobstruir o caminho para que aqueles que quisessem, pudessem entrar? Ou Cristo teve uma missão específica a um determinado povo que Deus escolheu antes da fundação do mundo, para dar ao seu Filho como uma  esposa?

É verdade que a morte de Cristo trouxe benefícios colaterais para todo o universo, para todos os homens, isto é chamado de “a graça comum”, pois a morte de Cristo proporcionou condições de vida para todos. Ele faz nascer o sol para justos e injustos, e envia chuva para todos, regando a terra e fazendo-a produzir. Luiz Berkhof, em sua teologia sistemática,4 apresenta os  frutos  da graça comum:

1.      é sustada a  execução da  sentença;

2.      preservação de alguma percepção da verdade, da moral e da  religião;

3.      prática do bem externo e da justiça civil.

Embora a doutrina da expiação seja conhecida na história como doutrina agostiniana, ela na realidade é bíblica ou paulina como se queira designar. A Bíblia é clara ao afirmar que Cristo veio à Terra para redimir um povo específico. Desta forma a causa da salvação não é a escolha que o pecador faz de Cristo, mas a escolha que Deus faz do pecador. Deus tem um povo eleito e predestinou esse povo para a salvação.

João Alves dos Santos diz: “Antes da fundação do mundo, Deus escolheu determinados indivíduos para a salvação. Sua escolha não foi baseada em qualquer resposta ou ato previsto, a ser cumprido por seus escolhidos. A fé e as boas obras são resultados e não causa da escolha divina.”5 (Dt 10:15; Sl 65:4; Mt 11:27; 24:31; Rm 8:28 e 33.)

Podemos afirmar que a expiação que cristo efetuou na cruz é objetiva, eterna e eficaz. Cristo ao morrer na cruz, expiou de fato o pecado, e não apenas potencialmente, pois a morte de Cristo não apenas possibilitou, mas com realidade assegurou para os eleitos a salvação.


5.  POR QUEM CRISTO MORREU?

John Owem, a grande voz puritana, pergunta: “Se Cristo morreu pelos pecados de todos os homens, então porque todos os homens não são salvos?” Ele diz que a resposta a esta pergunta é sempre que a incredulidade é a causa, então ele continua: “ mas a incredulidade não é pecado? Se não é, porque os homens são condenados por ela? Se é pecado, então deve estar incluído entre os pecados pelos quais Cristo morreu, ou então a morte de Cristo não é suficiente, pois não é justo pagar duas vezes pelo mesmo pecado, isto é ser  bitributado.

Na realidade a nossa dificuldade com a expiação limitada é porque ela  está baseada na eleição incondicional e por sua vez a eleição incondicional está baseada na soberania de Deus. Aqui está o ponto nevrálgico da questão, pois se aceitamos a soberania total e absoluta de Deus não questionamos nem a eleição e nem a expiação limitada. As escrituras não apenas ensinam que Deus predestinou certos indivíduos para a vida eterna, mas que todos os eventos, grandes e pequenos acontecem como resultado do eterno decreto de Deus. Nada acontece fora do seu controle e do seu eterno propósito.

Quando lemos o capítulo 17 de João, conhecido como a oração sacerdotal de Cristo, a realidade da expiação limitada fica bem evidente, pois em sua oração, Jesus diz no verso 6: “Manifestei o teu nome aos que do mundo me deste.” Também vemos no verso 9 que Jesus diz: “Eu rogo por eles, não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me tens dado, porque são teus.” Jesus nesta oração deixa claro que Ele veio à Terra com uma missão específica, salvar os eleitos, e que Ele cumpriu esta missão. Vejamos o que diz o verso 4: “Eu te glorifiquei na Terra completando a obra que me deste para fazer,” e as suas últimas palavras na cruz, segundo o evangelho de João, foi: “Está   consumado!”

Pela Palavra de Deus, pode se concluir que a salvação está baseada no pacto, tanto quanto a redenção. Pois é evidente que houve um pacto entre o Pai e o Filho com relação a salvação dos eleitos, e como conseqüência lógica, Cristo veio ao mundo para cumprir o pacto. Podemos então afirmar que a natureza do pacto decide e determina o objetivo de sua morte.

Várias são as passagens da Bíblia que comprovam explicitamente que Cristo deu sua vida pelos eleitos. Efésios 5:25 diz que “Cristo amou sua Igreja e    a si mesmo se entregou por ela.” Em João 10:15, Jesus diz: “Dou a minha vida pelas minhas ovelhas.”  Em, João 15:13 Ele diz que “Ninguém tem maior amor  do que este, de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos.” Em seu discurso de despedida dos presbíteros de Éfeso em Atos 20:28, Paulo fala que Deus comprou a Igreja com o Seu próprio sangue. Muitos dizem que essa doutrina da eleição e da limitada expiação é contrária a natureza de Deus, pois um Deus que é amor, não faria acepção de pessoas. Mas nos esquecemos que todos pecaram, e que não há um justo sequer, ninguém tem  direito  algum diante de Deus. Portanto, Deus não está sendo injusto ao condenar os ímpios, mas sim justo, assim como está sendo justo ao justificar os seus eleitos. Por isso  a cruz é manifestação da justiça de Deus com os eleitos. Nossa salvação não é imoral  ou  ilegal,  mas  justa  e  santa,  por  causa  de  Cristo.  Portanto,  tanto    a condenação dos ímpios, como a salvação dos eleitos, é um ato de justiça de Deus. Esta é a tese defendida por Paulo em Romanos 9:14 a 18, com relação a rejeição de Israel. “Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum!” Pois Deus é soberano e criador de tudo e de todos. Ele exerce misericórdia de quem Ele quer, e esta misericórdia não depende do homem, pois se dependesse não seria misericórdia, nem graça, mas pagamento. O verso 18 diz: “Logo, tem Ele misericórdia de quem quiser e também endurece a quem quer.”

CONCLUSÃO

Diante de desígnios tão maravilhosos, e de tamanha sabedoria divina, só nos resta prostrarmo-nos em adoração dizendo juntamente com Paulo: “Ó Profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem deu primeiro a Ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A Ele, pois, a glória eternamente. Amem!”  (Rm 11:33-36).




1 John Owen - Por quem Cristo morreu, Ed. PES. p. 27

2 J.I. Paker - O Antropo Evangelho, Ed. Fiel, p. 12

3 Charles Hodge - Teologia Sistemática, Ed. Hagnos, p. 890

4 Louis Berkhof - Teologia Sistemática, p. 70

João Alves dos Santos - Apostila- Os Cinco Pontos do Calvinismo, p. 10

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 



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